O Brasil sabe produzir conhecimento científico, o que não dá para negar. Nos últimos anos, as universidades, institutos de pesquisa e centros tecnológicos do país vêm formando muita gente qualificada que entra em áreas estratégicas para a economia. Só que, na hora de transformar todo esse saber em inovação, negócios de verdade e ganhos de competitividade, o desafio ainda é grande.
Esse assunto voltou para pauta de vez, principalmente com a chegada da Nova Indústria Brasil (NIB), programa que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) está tocando. O objetivo é claro: dar um gás na indústria nacional, com foco em inovação, digitalização, sustentabilidade e desenvolvimento tecnológico. E no centro desse debate está um consenso: produtividade e conhecimento caminham juntos.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) também coloca esse tema como prioridade. Números da entidade mostram que a indústria representava 23,4% do PIB em 2025, se contar toda a cadeia produtiva, e absorve mais de dois terços dos investimentos das empresas em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil. Isso reforça como o setor industrial é essencial para gerar tecnologia e inovação.
Edilson Gomes de Lima, engenheiro mecânico e pesquisador, explica bem o entrave atual: o Brasil já avançou na formação de gente qualificada e na produção de conhecimento técnico, mas falta dar o próximo passo. O problema não é formar pessoas ou gerar pesquisa; é transformar tudo isso em soluções que resolvam os problemas reais da sociedade.
“A gente investe bastante na formação, mas ainda aproveita pouco desse conhecimento como produtos, processos, empresas ou tecnologia. O saber precisa sair da sala de aula e chegar na indústria”, diz ele.
O distanciamento entre universidades, centros de pesquisa, empresas e governo ainda freia o desenvolvimento. “O Brasil já produz conhecimento científico e técnico em quantidade. Não basta pesquisar; a meta é transformar isso em riqueza, inovação, empregos e competitividade”, completa Edilson.
Na prática, todos têm seu papel. As universidades formam profissionais e desenvolvem pesquisa. As empresas enxergam o que o mercado precisa e levam o conhecimento para produtos e serviços inovadores. Já o setor público garante um ambiente favorável ao investimento, oferece infraestrutura, apoia formação técnica e cria mecanismos para incentivar a inovação.
Edilson acredita que esse trabalho em conjunto pode ser a chave para uma nova fase da indústria brasileira. Áreas como automação, robótica, manufatura avançada, novos materiais, nanotecnologia e biotecnologia têm potencial para deixar o país mais competitivo e abrir novas vagas para profissionais altamente qualificados.
“Uma política que realmente fortaleça engenharia, inovação e a aproximação entre universidades, centros de pesquisa e empresas pode criar novos polos industriais e tecnológicos, com mais produtividade e uma economia mais diversificada”, defende.
No fim das contas, não falta produção científica: o problema é fazer esse conhecimento circular fora da academia. Economias inovadoras apostam na parceria forte entre universidades, empresas e Estado para desenvolver tecnologias rápidas, fortalecer cadeias produtivas e disputar mercados de maior valor agregado.
No Brasil, esse tema ficou ainda mais urgente por causa da busca por produtividade e da necessidade de diversificar a base industrial. Investir em engenharia e inovação é investir na capacidade do país de criar suas próprias soluções, ficar menos dependente de tecnologia de fora e gerar riqueza de modo sustentável.
“No fundo, o Brasil já produz conhecimento suficiente. O grande ponto agora é transformar isso em desenvolvimento. E a engenharia tem papel fundamental nesse processo”, reforça Edilson.
Se a formação de pesquisadores e a produção acadêmica não são mais o maior gargalo, o passo seguinte é conectar conhecimento, investimento e setor produtivo. É desse encontro que nasce uma economia mais inovadora, competitiva e pronta para os desafios das próximas décadas.

