Falar de Tarsila do Amaral em 2026 vai além da estética. Em meio às discussões no Congresso sobre o fim da escala de trabalho 6×1, o olhar de Tarsila do Amaral sobre o mundo do trabalho – presente em Operários – volta a provocar reflexão.
A tela, produzida em 1933, reúne 51 rostos de trabalhadores da indústria. São homens e mulheres de diferentes idades e origens, todos com expressões sérias e cansadas. Ao fundo, fábricas e chaminés lançam fumaça sobre o céu – um retrato direto do avanço industrial e das condições de trabalho da época.
Décadas depois, a obra segue provocando reflexão, já que a pintura dialoga com discussões contemporâneas sobre o mundo do trabalho e seus impactos sociais.
Arte que ultrapassa o tempo
A força de Tarsila do Amaral está justamente na capacidade de atravessar gerações.
Conhecida por integrar o Movimento Antropofágico, a artista defendia que o Brasil deveria absorver influências externas e transformá-las em algo próprio. Mas sua produção não se limitou à experimentação estética.
Ao longo da carreira, especialmente na chamada “fase social”, Tarsila passou a retratar desigualdades, industrialização e transformações estruturais do país – temas que continuam presentes no cotidiano brasileiro.

Exposição gratuita em Brasília
Esse olhar multifacetado é o ponto de partida da exposição “Transbordar o mundo”, em cartaz no Centro Cultural do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília, até o dia 10 de maio.
Com curadoria de Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, a mostra apresenta a artista como um “corpo-em-obra” – em constante transformação, acompanhando as inquietações estéticas, sociais e políticas do século 20.
Um dos destaques é a sala imersiva, desenvolvida pela Live Idea, com curadoria de Paola Montenegro e Juliana Miraldi, que combina arte, tecnologia e novas formas de mediação cultural.
Quatro fases, um retrato do Brasil
Organizada em quatro núcleos curatoriais, a exposição acompanha os diferentes momentos da trajetória de Tarsila:
Início da carreira, com experimentações e influências modernistas
Descoberta do espaço, entre o urbano acelerado e o interior mais contemplativo
Universo imaginário, marcado por cores vibrantes e formas simbólicas
Fase social, onde obras como Operários ganham protagonismo
Além disso, o público pode ver trabalhos importantes como São Paulo, Estrada de Ferro Central do Brasil e retratos ligados ao modernismo brasileiro.
Por que essa discussão importa agora
A presença de Operários no centro da exposição reforça um ponto relevante: a arte também é uma forma de interpretar transformações econômicas e sociais.
Ao retratar o avanço da industrialização e a rotina dos trabalhadores, Tarsila antecipou debates que seguem atuais – como produtividade, qualidade de vida e organização do trabalho.
Hoje, essas questões voltam ao debate público em um contexto diferente, mas com desafios que ainda dialogam com o passado.
Uma obra que continua em movimento
Pela primeira vez em Brasília, o conjunto reunido oferece uma visão ampla da produção da artista, com obras de acervos públicos e privados.
Mais do que uma retrospectiva, “Transbordar o mundo” se apresenta como uma atualização crítica do legado de Tarsila do Amaral – mostrando como sua obra continua relevante ao tratar de temas como identidade, território, memória e desigualdade.
